A falta de um pai: resultados de uma abordagem policial no Paraná

Moradora do Majorca que teve corpo parcialmente queimado morre na última quinta-feira
10 de agosto de 2018

Jornalista: Júlia Vieira

Adrian Beppler da Rosa, 26 anos, acordava por primeiro de manhã, com Yasmin, de um ano e 10 meses, agarrada no pescoço. Saia da cama, fazia a mamadeira, trocava a fralda da filha e esperava com a mesa pronta para o café. Um pai babão como todos o chamavam, um marido paciente, segundo a esposa, e um homem que amava o convívio familiar e a Deus. Tanto que morava a poucos metros da mãe, pai e os outros cinco irmãos, no bairro Ubatuba. Era também diretor do Clube de Aventureiros da Igreja Adventista, desde janeiro deste ano.

Quando foi para o Paraná, na madrugada de segunda, dia 23 de julho, para arrumar a nova casa da família, em Ampére, queria encontrar também uma casa para morar com sua esposa e filha na mesma cidade. De preferência um sitiozinho, para criar Yasmin junto dos animais.

Não imaginava que na cidade do lado, Salto de Lontra, se depararia com a situação que o levou a morte, onde foi apenas para dormir, depois de um dia de trabalho ajeitando a casa da mãe, que estaria a caminho no dia seguinte. “Eles chegaram quase 3h da tarde. Como não tinha luz e nem água, eles foram fazer a ligação da luz e dar uma ajeitada na casa. Até a gente foi lá, eles tinham varrido a casa, estavam as coisas deles lá: os colchonetes, um balde com as coisas de comida, um outro balde com produtos de limpeza, que eles iam limpar”, conta a esposa de Adrian, Elaine de Almeida da Rosa.

Na terça-feira de manhã (24), a família, em São Francisco do Sul, ainda não tinha notícias de Adrian Beppler da Rosa e do irmão Orestilhano Maria da Rosa Júnior, 21 anos. Sabiam que alguma coisa estava errada já que os irmãos não foram dormir na casa dos primos em Salto de Lontra, na segunda à noite, e não buscaram as irmãs na rodoviária, na terça-feira.

Logo a família pensou que um acidente pudesse ter acontecido. “A gente estava ajudando na mudança, o caminhão já tinha chegado, eles estavam carregando a mudança… até o caminhão já tinha ido. A gente estava com as malas lá fora e meu sogro com o primo no telefone, mas não conseguia saber direito o que era, porque ele [o primo] também não sabia, eles estavam indo atrás ainda”, relata Elaine.

O pai dos irmãos, Orestilhano, estava nervoso com a situação, não conseguia achar a chave do carro, quando recebeu a notícia na ligação. Elaine que estava dentro de casa com Yasmin só escutou o grito de Sandra, mãe dos irmãos, e saiu correndo em direção a eles, até que recebeu a notícia.

 

Um pai presente

Adrian não queria ser pai, mas quando se tornou um, não desgrudava da menina dele, Yasmin. “Ele brincava de esconde-esconde com ela, não ia à padaria sem levar ela junto”, diz.

Antes de saber do ocorrido, Yasmin ficou andando pela casa perguntando onde estava o “papai”. Elaine explicava a ela que Adrian estava viajando e que no dia seguinte iriam encontrá-lo. Mas depois de Elaine saber a notícia, com o fluxo de gente que vinha consolá-las, Yasmin acabou esquecendo naquele dia e nos dias seguintes da promessa feita pela mãe.

Porém, não demorou muito, pelo fato dos três dormirem juntos, a hora de dormir é quando a filha sente mais falta do pai. No dia 9 de agosto, na última quinta-feira, quando o casal completaria cinco anos de casado, Elaine explicou a ausência do pai de modo diferente. “Eu comecei a explicar pra ela que o papai está dormindo, mas que logo a gente vai voltar a ver ele de novo”, fala.

Entenda o caso

Os irmãos Adrian Beppler da Rosa, 26 anos, e Orestilhano Maria da Rosa Júnior, 21, de São Francisco do Sul, estavam em Salto de Lontra, no Paraná, na segunda-feira (23), onde dormiriam, após terem arrumado a casa da família, na cidade de Ampére, para mudança.

De acordo com informações do boletim de ocorrência, a Polícia Militar teria recebido uma denúncia de um carro em atitude suspeita que estaria na região – carro onde estavam os irmãos. A polícia, na primeira versão, teria alegado que Adrian e Orestilhano estavam armados e um deles, o mais novo, teria tentado reagir em abordagem.

Mas, conforme coletiva de imprensa feita pelo 21º BPM-Paraná no final do mês de julho, um dos policiais envolvidos na abordagem procurou o comando, após três dias do ocorrido, para relatar o que havia acontecido. E, diferente da primeira versão e do que consta no boletim de ocorrência, o policial relatou que o companheiro, soldado Adrey Castelli, teria atirado nos irmãos e, após verificar que os jovens não estavam armados,  colocado armas no local do crime de forma dolosa.

Elaine conta que os irmãos se perderam ao irem para casa do primo e foram pedir informação em um bar, lá estavam três pessoas que desconfiaram deles e os denunciaram. Os policiais, então, estavam os esperando nas margens da rodovia, quando abordaram os irmãos. “Os policiais revistaram eles. Só que meu cunhado, acho que foi puxar a calça e o policial achou que ele ia atirar. O que é bem estranho, porque eles já tinham revistado. Porque a primeira coisa que a polícia faz é revistar, até lá [no boletim] eles falam que já tinham revistado”, explica Elaine. Outra versão estranha para esposa de Adrian, foi que ao alegar que Orestilhano Júnior teria sacado uma arma, o primeiro a ser baleado foi o marido dela.

Segundo relatos da esposa, Orestilhano recebeu um tiro na costela que o levou a morte na hora. Adrian recebeu três tiros: um no peito, um na barriga e um na mão. Ainda vivo, foi encaminhado para o hospital, mas faleceu na manhã de terça-feira. O tiro na mão foi o que resultou na perda de dedos.

Um inquérito foi aberto para investigar o que realmente aconteceu com os jovens irmãos. A reprodução do simulado do caso foi feita na última terça-feira (7), as investigações ainda apontam para um terceiro policial envolvido no crime. O inquérito deverá ser concluído nos próximos dias.

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