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Homenagem

Prático francisquense recebe condecoração da Marinha

Lauri Rui Ramos foi condecorado com a Ordem do Mérito Naval por manobra com comboio em chamas em janeiro deste ano.

A noite de 16 de janeiro de 2020 está na memória de muitos. Pelo menos dos envolvidos em um dos maiores acidentes registrados no Porto de São Francisco do Sul nos últimos anos. Naquela noite o prático Lauri Rui Ramos atracou um comboio com empurrador em chamas evitando mortes, poluição ambiental e maiores danos aos patrimônios público e privado. 

O prático há dez anos, Lauri, entrou para a reserva da como Capitão de Mar e Guerra e foi homenageado pela Marinha do Brasil com a Ordem do Mérito Naval. A medalha foi criada na década de 1930 com a finalidade de agraciar quem tenha se distinguido no exercício da sua profissão. 

Lauri conversou com a reportagem do jornal, para falar sobre o trabalho como prático, lembrar daquela noite e sobre a condecoração recebida. 

Quanto tempo o senhor está na atividade? 

De prático tenho dez anos, mas eu era um oficial da Marinha de Guerra. Passei 30 anos lá. Desses 30 anos pelo menos metade na área de submarinos. Um serviço de patrulhamento da costa brasileira. Navegava por essas águas aqui também. Vinha para cá, para o sul, para o nordeste. Navegava praticamente pela costa inteira.

O trabalho como prático tem diferença para um comandante de navio? 

O prático atua em áreas restritas, onde o comandante não é acostumado, treinado para navegar. Quando um comandante está a poucos quilômetros da costa ele já considera uma área de trabalho para o prático. Até porque nós trabalhamos com metros de distância de pedras, das margens do canal. O prático precisa ter um profundo treinamento para manobrar navios. Porque ele manobra qualquer tipo de navio. Além da questão teórica é preciso treinar pelo menos um ou dois anos antes de uma banca atestar que se está pronto para atuar como prático ou não.

Quais os principais perigos que temos aqui na Baia Babitonga para atracação de navios? 

A aproximação do Porto de São Francisco do Sul, em si, é uma área muito perigosa. Todo esse canal interno, a bacia de evolução e até você se aproximar do berço, onde se vê boia são pedras embaixo. Então não tem risco só de encalhe, tem risco de rasgar o navio. E tem correntes fortes em determinados momentos. No final do canal o navio faz uma guinada de quase 90 graus, ele pega essas correntes fortes quase que lateralmente, de través. E isso tem uma influência muito grande sobre o navio. Quanto mais o navio tem de calado, mas ele está embaixo da água, mais carregado, mais estas correntes dificultam a manobra.

Como foi o trabalho naquela noite do acidente? 

Tem um rebocador na popa e outro na proa. Quando começou o incêndio eu mandei o rebocador do popa vir para o meio do navio. Ele esticou o cabo e foi para a posição. Os rebocadores ajudaram muito. Foram valentes. Eles ficaram comigo durante a manobra. Toda a tripulação do conjunto abandonou a embarcação. Eu fiquei sozinho lá. Se eu abandonasse os rebocadores teriam que fazer isso também. Só saí quando já estava com o conjunto atracado e o fogo havia cessado.

Quanto tempo durou? O risco de morte era extremamente alto, não? 

Deve ter durado de 20 a 30 minutos, toda a situação. O risco é muito alto. Depois que fiz a curva eu passei para a barcaça. Fiquei um pouco mais protegido. Mas quem estava mais longe ainda do fogo, que eram os marinheiros da proa, eles também pularam na água. E eu não sabia. Depois eu descobri que eles tiveram que pular porque o fogo envolveu muito o empurrador inteiro. Chegou uma hora que o comandante e o imediato tiveram que pular lá de cima porque o fogo estava envolvendo a área de comando. Só fiquei sabendo que estavam todos na água quando o rádio informou que as nossas lanchas da praticagem haviam resgatado inclusive o comandante.

O senhor ficou satisfeito com a manobra, mesmo considerando os riscos? 

A primeira medida seria parar e tentar recuar, para não levar para o cais. Só que onde eu estava, com todo mundo na água e com o espaço restrito tive que tomar uma decisão. Os rebocadores não conseguiriam girar, eu teria que reverter o motor e "puxar de popa". Teria que tirar o rebocador que estava no meio e levar para a popa do conjunto que estava incendiando. O rebocador não iria, e com toda a razão. Eu olhei para o cais e vi que não tinha instalação de óleo, nada inflamável. Eu parei e tomei a decisão em fração de segundos: "eu vou levar". Porque se eu abandono, os rebocadores também iriam sair. E naquela área com o conjunto solto não se sabe o que aconteceria. Poderia encalhar, bater no cais, causar uma catástrofe. E só conseguimos atracar porque fomos bem devagar e uma embarcação com canhões de água muito potente, ficou direcionando a água para as chamas até o fogo apagar. Com todos os riscos a manobra se mostrou muito acertada. E teve uma ação, uma ajuda muito grande dos rebocadores.

Com certeza a manobra foi um sucesso, tanto que o senhor recebeu esta homenagem? 

A Marinha de Guerra avaliou e achou que foi ato importante e decidiu condecorar com a Ordem do Mérito Naval. Eu recebi esta medalha quando estava na ativa, quando era Capitão de Mar e Guerra. Agora estou mudando de grau dentro da Ordem. É um reconhecimento da Marinha por relevantes trabalhos. Eles notaram que foi uma coisa que fugiu da normalidade e que exigiu algum desprendimento, uma tranquilidade para conseguir realizar tal manobra.

Relembrando o fato 

Por volta das 20 horas de 16 de janeiro de 2020, o prático Lauri Rui Ramos embarcou no empurrador Norsul Vitória para atracar o conjunto formado com a barcaça Norsul 11, no berço 302 do Terminal Santa Catarina. Após a curva na boia da Laje da Barata ele passou para a barcaça a fim de ter melhor visão e aumentar a segurança na aproximação do cais.

Quando estava a 200 metros do cais, empurrador perdeu uma das máquinas e logo depois houve perda total da propulsão. Foi quando iniciou o fogo na praça de máquinas, que se alastrou rapidamente.  

Com as chamas, Comandante e tripulação do empurrador e da barcaça pularam na água. Lauri permaneceu a bordo sozinho e resolveu concluir a manobra de atracação com o auxílio dos dois rebocadores, apesar de todos os riscos envolvidos. 



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